Idosa contraiu doença ainda na infância, dois anos antes do início da vacinação nos EUA
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Martha Ann Lillard se tornou um dos símbolos da época em que a poliomielite era uma das doenças mais temidas nos Estados Unidos. Considerada a última pessoa conhecida no país a depender de um “pulmão de aço” para respirar, ela morreu aos 78 anos após passar mais de sete décadas ligada ao equipamento.
Moradora de Shawnee, no estado de Oklahoma, Lillard contraiu poliomielite em 1953, pouco depois de completar cinco anos — apenas dois anos antes do início da vacinação contra a doença nos EUA. A infecção causou paralisia parcial e comprometeu sua capacidade respiratória, deixando seus pulmões funcionando com apenas uma fração da capacidade normal.
Após cerca de seis meses internada, ela continuou utilizando o equipamento pelo restante da vida. O aparelho, criado em 1928 pelos pesquisadores Philip Drinker e Louis Shaw, da Universidade de Harvard, era um respirador mecânico de pressão negativa que envolvia quase todo o corpo do paciente. Dentro de uma grande câmara metálica, apenas a cabeça ficava para fora, enquanto mudanças de pressão faziam o tórax se expandir e contrair, ajudando os pulmões a funcionar.
Durante as grandes epidemias de poliomielite das décadas de 1940 e 1950, os pulmões de aço foram fundamentais para manter vivos pacientes que haviam perdido a capacidade de respirar sozinhos. Com a chegada da vacina contra a doença, aprovada nos EUA em 1955, e o desenvolvimento de respiradores modernos, esses equipamentos praticamente desapareceram dos hospitais.
Para Lillard, porém, o pulmão de aço continuou sendo indispensável. Em entrevistas, ela contou que tentou outros métodos de ventilação, mas não se adaptou. Segundo ela, o equipamento era a forma mais eficiente e confortável de respirar.
“Eu preferiria não precisar disso. Mas às vezes, quando chego lá, digo: ‘obrigada’. É maravilhoso entrar nisso. Foi o que esteve lá e que salvou minha vida”, afirmou em entrevista à Rádio Diaries.
Mesmo com as limitações físicas, Lillard manteve uma vida ativa. Ela frequentou a escola na infância, inicialmente por algumas horas por dia, e depois continuou os estudos com aulas particulares. Ao longo dos anos, pintava, assistia a filmes clássicos e cuidava de cães da raça beagle. Com o apoio da família, também conseguiu viajar em um trailer adaptado. Seu pai chegou a conversar com hotéis para garantir que os espaços fossem adequados para acomodar o equipamento, e por um período ela chegou a dirigir.
Segundo sua irmã mais nova, Cindy McVey, médicos disseram que Lillard dificilmente chegaria aos 20 anos. “Ela tinha entusiasmo e determinação para continuar vivendo e aproveitar a vida ao máximo”, afirmou.
Nos últimos anos, porém, sua saúde se tornou mais delicada. Lillard desenvolveu síndrome pós-pólio e, posteriormente, enfrentou complicações da Covid longa, passando a depender do pulmão de aço em tempo integral.
Segundo a família, ela morreu em 26 de junho em decorrência de complicações relacionadas à doença. A certidão de óbito também apontou insuficiência pulmonar crônica e síndrome pós-pólio como fatores associados.
A manutenção do equipamento que a acompanhou por décadas tornou-se um desafio com o passar do tempo. Fabricados principalmente entre as décadas de 1940 e 1960, os pulmões de aço ficaram cada vez mais raros, e peças de reposição e técnicos especializados praticamente desapareceram. Na década de 1990, Lillard chegou a procurar hospitais e museus que ainda guardassem aparelhos antigos, mas acabou comprando um equipamento de um homem em Utah, que utilizou até os últimos anos de vida.
Ela passou a ser considerada a última usuária conhecida de um pulmão de aço nos Estados Unidos após a morte de Paul Alexander, em março de 2024. Conhecido como “o homem do pulmão de aço”, Alexander também contraiu poliomielite na infância e viveu mais de 70 anos dentro do equipamento. Ele se tornou conhecido por se formar em direito, escrever um livro de memórias e produzir pinturas segurando um pincel com a boca.
