Marketing digital ficou ainda mais em alta depois da pandemia e o empreendedorismo online se tornou uma alternativa para gerar renda trabalhando em casa
Texto: Ana Paula Ramos/Record TV Japan
Foto: AdobeStock
Não é novidade que a pandemia acelerou o crescimento do mundo digital. As empresas que pregavam contra o home office acabaram cedendo, as pessoas começaram a passar mais tempo em casa, se viram entediadas e isto aumentou o interesse pelo estudo e as oportunidades do mundo online.
E não foi só a vontade de estudar que aumentou, mas também o interesse na criação e venda de cursos online e no empreendedorismo digital. Em junho de 2020, o Google divulgou que houve um aumento de 43% nas pesquisas por “marketing digital”, em comparação com a mesma época de 2019, antes da pandemia.
O termo, que representa uma área de estudo indispensável para ter sucesso na venda de produto digitais, é um indicativo do aumento do interesse nesse tipo de negócio. Os dados da Hotmart, uma das maiores plataformas de hospedagem de cursos online, confirmam a expansão: em 2020, a startup nascida em Minas Gerais dobrou suas vendas, com o aumento de produtores e compradores de cursos.
No Japão, alguns brasileiros que acompanharam a avalanche do mercado digital decidiram pegar uma carona. A vida na fábrica foi substituída pela dedicação na produção de conteúdo nas redes sociais, produção de cursos, lançamentos e divulgação. Apesar das dificuldades da trajetória, quem tomou a decisão de buscar por um novo tipo de carreira no mundo online, não se arrepende.
A fotógrafa Letícia Zayan (42), que mora em Toyota (província de Aichi), se despediu da fábrica há três meses para viver exclusivamente do empreendedorismo digital. A brasileira, que começou a fotografar em 2008 e estudou o ofício sozinha, estreou na profissão fotografando aniversários e transformou a paixão em um trabalho rentável.
“Eu ganhei uma máquina de presente do meu marido quando moramos no Japão pela primeira vez, há 13 anos. Depois, fomos ao Brasil e eu comecei a trabalhar quando uma amiga pediu para fotografar o aniversário do filho. Eu fui insegura e não quis cobrar, apesar de ter estudado, mas ela gostou tanto do resultado que fez questão de pagar. Foi assim que começou”, relembra.
Letícia voltou ao Japão em 2018 e ficou sete meses sem trabalhar, ajudando os filhos na adaptação escolar. Depois deste período, iniciou a rotina na fábrica. Quando chegou a pandemia, ela conta que acabou dispensada.

“De início, eu não quis empreender quando saí da fábrica. Eu cheguei a ter uma empresa, administrei mal, perdi meus equipamentos e não aceitava mais a fotografia na minha vida. Eu não conseguia aceitar que falhei com a coisa que mais amo fazer e passei por um processo de três anos até me recuperar, sem conseguir nem falar em fotografia”, revelou.
A mudança iniciou depois da pandemia, quando a brasileira foi trabalhar em uma outra fábrica, onde fazia a inspeção de peças e passava mais tempo sozinha. Neste período, Letícia começou a refletir sobre a vida, fez autodescobertas e decidiu voltar ao propósito, dessa vez com um novo foco.
“Eu trabalhava muito tempo em pé e sozinha, e então refleti muito sobre a minha vida e passei por uns processos internos importantes. Fiz uma visita ao meu passado, me perdoei pelos meus erros. A partir deste momento, eu quis começar com gás total na fotografia”, contou.
A brasileira já estava atenta ao marketing digital e começou a estudar com o intuito de lançar cursos de fotografia totalmente online. “Nestes três anos que fiquei ausente, o mercado mudou. Hoje vivemos um mercado pós-pandêmico, totalmente online e voltado para o digital. Agora estou me aprofundando e estudando, tenho respirado isso”, diz.
Atualmente, Letícia tem um curso de fotografia para celular e outro de formação de fotógrafos, que são cursos que funcionam presencialmente, com mentorias ou com aulas online em tempo real. O objetivo agora é transformar os cursos em infoprodutos, gravados para que o aluno tenha acesso a qualquer momento. Além disso, a brasileira está trabalhando em um curso para mulheres empreendedoras, com o intuito de ensinar a usar a fotografia para se posicionar no mercado.
“Estou trabalhando nisto diariamente e pretendo lançar o curso em janeiro. Desde que saí da fábrica em setembro, tenho me dedicado exclusivamente ao empreendedorismo, vivo só da fotografia e a ideia é que em 2022 os meus cursos estejam online”, comentou.
Confeitaria digital
O mercado de produtos digitais é extenso e parece não ter limites. Qualquer conhecimento especializado, em qualquer área, pode ser empacotado no formato de um curso gravado e oferecido aos interessados em aprender. Para isto, basta ter um conhecimento que interesse outras pessoas e trabalhar para encontrar o público certo.
A confeiteira Thais Oomura (34) vive em Hamamatsu (Shizuoka) e já está há alguns anos trabalhando com a confecção de bolos e a realização de cursos na área. Ela começou a estudar confeitaria em 2015, depois de fazer um curso em Aichi e desde então, aprofundou o conhecimento e a experiência.

“De início, eu só fazia bolos simples de chantilly e com o tempo eu fui me especializando, fazendo cursos online e presenciais. Era para ser só uma renda extra, mas consegui muitos clientes e depois que entrei nesta área, nunca mais voltei para a fábrica”, conta.
A vida de professora de confeitaria iniciou em 2019, quando Thais começou a dar cursos presenciais. Depois de montar grupos e orientar muitos alunos, a brasileira percebeu um potencial no meio digital e criou o curso “Confeitaria Fácil no Japão”, lançado pela plataforma Hotmart ao custo de ¥10 mil.
“Muitas pessoas de longe me procuraram querendo fazer os cursos, mas não podiam ir até o local e eu não tinha como ficar viajando por causa dos filhos e o meu marido trabalhando na fábrica. Logo veio a pandemia, os atendimentos presenciais foram suspensos e aí veio a ideia dos cursos online”, explicou.
O curso foi lançado na plataforma no mês passado e Thais ensina em vídeo-aulas sobre ingredientes, materiais de preparação das massas e recheios. “Temos vídeos e apostilas. São mais de 15 tipos de recheios para agradar a todos os paladares e assim o aluno tem um menu de variedades”, diz.
E este é só o começo. A brasileira também pretende lançar um curso totalmente online de pasta americana neste 2022. “O novo curso será para as pessoas que já trabalham na área e querem oferecer algo diferente como bolos e doces. Espero conseguir ajudar muitas pessoas a ter uma renda extra com esse conhecimento”, afirmou.
A pandemia deu um empurrão no mundo digital e tudo indica que a tendência veio para ficar. Quem está apostando neste mercado por acabar colhendo bons frutos e encontrando uma nova forma de trabalhar, obter uma renda estável e não depender mais de rotinas desgastantes, que é a realidade de muitas fábricas no Japão.
