Sanae Takaichi já havia chamado a atenção ao afirmar que dorme poucas horas por noite
Foto: Reprodução Record News / Portal R7
A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, causou polêmica após afirmar que dedica de três a quatro horas a mais do que seus antecessores homens a atividades como tomar banho, preparar o café da manhã, lavar a louça e se maquiar. A declaração foi feita em 14 de outubro, durante uma sessão parlamentar em Tóquio.
Primeira mulher a ocupar o cargo de premiê japonês, Takaichi explicou que essas atividades ampliam sua rotina diária e dificultam a organização do tempo para as responsabilidades de governo. A fala repercutiu nas redes sociais e na imprensa internacional, com questionamentos sobre a divisão desigual do trabalho doméstico e as exigências de aparência impostas às mulheres, inclusive em posições de poder.
“De manhã, tomo banho, preparo o café da manhã e depois lavo a louça, sem falar em me maquiar”, afirmou a premiê ao Parlamento. Segundo ela, a soma dessas tarefas representa um gasto adicional de três a quatro horas em comparação com a rotina de primeiros-ministros homens.
A repercussão ocorre em um país onde a divisão do trabalho doméstico continua desigual. Dados citados pela Associated Press (AP) indicam que as mulheres japonesas dedicam, em média, quase cinco horas por dia aos afazeres domésticos, enquanto os homens gastam cerca de 40 minutos nessas atividades.
Parte dos comentários nas redes sociais questionou a ideia de que a maquiagem e os cuidados pessoais deveriam ser tratados como obrigações específicas das mulheres. Outras manifestações argumentam que Takaichi chamou a atenção para a carga adicional enfrentada por profissionais que precisam conciliar o emprego com as tarefas de casa e o cuidado de familiares.
Sono, militarização e escândalos políticos
A declaração sobre a rotina doméstica não foi a única a provocar debate sobre os hábitos de trabalho da primeira-ministra. Takaichi já havia chamado a atenção ao afirmar que dorme poucas horas por noite e mantém uma agenda intensa, com reuniões que podem ocorrer de madrugada. Em comentários sobre sua rotina, ela mencionou dormir de zero a três horas por noite, o que gerou discussões sobre a cultura de jornadas excessivas no Japão e os limites da dedicação profissional.
A premiê também relatou que precisa conciliar as funções de governo com tarefas como lavar roupas, limpar a casa e passar peças de vestuário. As declarações alimentaram críticas sobre a organização de sua agenda, enquanto apoiadores argumentaram que os relatos evidenciam a pressão enfrentada por quem ocupa o cargo mais alto do governo japonês.
Outro foco de controvérsia é a política de fortalecimento militar defendida por Takaichi. O governo busca ampliar os gastos com defesa, desenvolver capacidades de contra-ataque e revisar as estratégias de segurança nacional diante das tensões envolvendo China, Coreia do Norte e Rússia. A premiê também defende a revisão da Constituição japonesa, especialmente das disposições que limitam o papel militar do país desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Em abril de 2026, o governo flexibilizou as regras para exportação de armamentos, permitindo a venda de equipamentos militares letais a países parceiros com os quais o Japão mantém acordos de cooperação em defesa. A decisão representou uma mudança importante em relação às restrições adotadas no período pós-guerra. Enquanto defensores da medida apontam oportunidades para ampliar a cooperação militar e fortalecer a indústria nacional, críticos veem um afastamento da tradição pacifista japonesa.
A postura mais assertiva na área de defesa também elevou as tensões com Pequim. Declarações de Takaichi sobre uma possível participação japonesa em um conflito envolvendo Taiwan provocaram reações do governo chinês. A primeira-ministra, por sua vez, argumenta que o reforço das capacidades militares é necessário diante da deterioração do cenário de segurança regional.
Mais recentemente, o governo enfrentou desgaste após a renúncia do ministro da Agricultura, Kazuo Yana, em outubro. Ele foi criticado por declarar que poderia cortar verbas para obras rodoviárias em municípios que não o apoiaram eleitoralmente. Takaichi repreendeu publicamente o ministro, mas a demora para substituí-lo ampliou os questionamentos sobre a escolha de integrantes do gabinete e a capacidade da premiê de responder a crises políticas.
Queda na aprovação da primeira-ministra
A popularidade do governo de Takaichi teve sinais de queda em outubro, segundo levantamentos divulgados pela imprensa japonesa. Uma pesquisa da Kyodo News, realizada nos dias 17 e 18 de outubro, apontou que a aprovação do gabinete caiu para 49,1%, o menor índice desde que a premiê assumiu o cargo, em outubro de 2025. Foi a primeira vez que o indicador ficou abaixo de 50% nesse levantamento durante seu mandato.
Outro levantamento, publicado pela Jiji Press em 15 de outubro, registrou aprovação de 42,4%, recuo de 1,7 ponto percentual em relação ao mês anterior. A desaprovação chegou a 29,7%, alta de 0,4 ponto. Segundo a agência, foi a quinta queda mensal consecutiva no indicador de apoio ao gabinete.
Já uma pesquisa da TV Asahi, realizada nos dias 17 e 18 de outubro, apontou 47,1% de aprovação e 33,3% de desaprovação. Outros levantamentos publicados no mesmo período apresentaram resultados diferentes: a pesquisa da Yomiuri Shimbun indicou aprovação de 57%, enquanto o levantamento da Sankei-FNN registrou 62,6%.
