Com inversão de tendência, Sol se revela mais ativo que o previsto; cientistas alertam para impactos em missões espaciais e na Terra
Foto: Divulgação/Nasa
O Sol surpreendeu cientistas da Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, ao revelar um aumento inesperado de atividade nos últimos anos, o oposto do que era esperado de acordo com as previsões.
Segundo a Nasa, o atual Ciclo Solar 25, iniciado em 2020, tem se mostrado mais intenso, com maior força no vento solar e potenciais riscos de tempestades espaciais, que podem afetar o espaço e, até mesmo, a Terra.
De acordo com um comunicado divulgado pela agência neste mês, a atividade solar atingiu seu ponto mais fraco registrado em 2008, no fim do Ciclo Solar 24 – considerado o mais fraco em um século.
Na época, agências como a Nasa e a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) previam que o próximo ciclo seria similarmente ameno.
Em vez disso, dados analisados mostram que, desde então, o vento solar – fluxo de partículas carregadas emitidas pelo Sol – tem aumentado em velocidade, densidade, temperatura, pressão térmica, massa, momento, energia e magnitude do campo magnético.
“Todos os sinais apontavam para uma fase prolongada de baixa atividade do Sol. Então foi uma surpresa ver essa tendência se inverter. O Sol está lentamente despertando”, afirmou Jamie Jasinski, físico de plasma do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da Nasa.
O ciclo solar é um processo natural que ocorre a cada 11 anos, aproximadamente. Nesse período, o Sol passa por um aumento de atividade, com mais manchas solares – regiões mais frias e escuras na superfície, causadas por concentrações de campo magnético –, erupções solares (explosões de radiação) e ejeções de massa coronal (bolhas de plasma que se espalham pelo sistema solar). No pico do ciclo, os polos magnéticos do Sol invertem a polaridade.
O Ciclo Solar 25 tem esse nome porque é o 25º ciclo registrado. As primeiras observações datam do século 17, quando astrônomos como Galileu Galilei começaram a contar manchas solares.
Previsões difíceis
Apesar de séculos de dados, prever o comportamento solar é complicado. Tendências de longo prazo, como o ciclo de Hale (que dura 22 anos, abrangendo dois ciclos solares até os polos magnéticos retornarem à polaridade original), são ainda menos compreensíveis.
Historicamente, o Sol já teve períodos de calmaria extrema, como o Mínimo de Maunder (1645-1715, quase sem manchas solares) e o Mínimo de Dalton (1790-1830, cerca de 40 anos de baixa atividade).
“Não sabemos realmente por que o Sol passou por um mínimo de 40 anos a partir de 1790. As tendências de longo prazo são muito menos previsíveis e são algo que ainda não compreendemos completamente”, disse Jasinski.
Nos ciclos 22 (iniciado em 1986) e 23 (1996), a atividade de manchas solares foi mediana, mas a pressão do vento solar diminuiu, o que reforçou as expectativas por um “mínimo solar profundo” em 2008.
Mas o que houve foi um aumento constante desde então. A pressão do vento solar atual ainda é menor do que no início do século 20, mas os cientistas preveem possível clima espacial mais turbulento, com mais ventos solares fortes, erupções e ejeções.
Impactos a astronautas e à Terra
Esses fenômenos impactam diretamente o dia a dia. O vento solar comprime as magnetosferas – bolhas protetoras de campos magnéticos de planetas como a Terra –, podendo expor astronautas a radiação, interferir em naves espaciais, comunicações de rádio, GPS e redes elétricas.
Em maio de 2024, uma tempestade geomagnética intensa – a mais forte em mais de duas décadas – causou auroras boreais visíveis até o sul do México e alertas sobre riscos à internet e sistemas de comunicação globais.
Para monitorar melhor, a Nasa planeja lançamentos de missões. A Interstellar Mapping and Acceleration Probe (IMAP) e o Carruthers Geocorona Observatory estão previstas para 23 de setembro, a bordo de um foguete Falcon 9.
O próximo Ciclo Solar 26 deve começar entre 2029 e 2032. Por enquanto, os cientistas enfatizam que o número de manchas solares oferece um quadro incompleto do comportamento solar.
“Precisamos estudar um catálogo muito mais amplo do comportamento solar se quisermos compreender a dinâmica da nossa estrela”, conclui a Nasa, que publicou um estudo sobre as observações. A observação contínua é a única forma de prever o que virá a seguir.
