Relação marcada por conflitos na sala de aula se transformou em amizade e terminou em um transplante que salvou uma vida

Foto: Reprodução/Facebook/mitchell.r.grosky

Mais de 40 anos depois de considerar o professor Mitchell Grosky seu maior desafeto na escola, a americana Montana Miller decidiu doar um rim para salvar a vida dele. O transplante foi realizado em abril deste ano no UMass Memorial Medical Center, nos Estados Unidos, após os dois se reconectarem pelas redes sociais e desenvolverem uma amizade improvável.

Montana, hoje com 55 anos, foi aluna de Grosky em 1980 na The Bromfield School, em Harvard, no estado de Massachusetts. Na época, ela não escondia a insatisfação com as aulas de leitura do professor. Segundo a própria Montana, os dois viviam em constante confronto porque ela considerava as atividades simples demais para o seu nível de aprendizado.

“Eu absolutamente não o suportava”, afirmou Montana em entrevista ao The Boston Globe. Ela descreveu a relação como “uma batalha de mentes” e “uma batalha de vontades”.

Filha de fundadores de um jornal local, Montana cresceu cercada por livros e pela escrita. Seus pais chegaram a pedir que o professor oferecesse tarefas mais desafiadoras à menina, mas Grosky, então ainda no início da carreira, admitiu anos depois que não tinha a experiência necessária para lidar da melhor forma com alunos mais avançados.

Apesar dos conflitos em sala de aula, o professor guardou uma impressão muito diferente da ex-aluna. Segundo ele, Montana foi “talvez a estudante mais brilhante e criativa” que teve em toda a carreira.

Depois do período escolar, os dois seguiram caminhos completamente distintos. Grosky construiu uma longa trajetória como educador e diretor escolar em Athol, Massachusetts. Já Montana teve uma vida marcada por experiências radicais e pouco convencionais.

Apaixonada por altura desde a infância, ela se tornou ginasta competitiva ainda jovem e, aos 17 anos, mudou-se para a França para estudar em uma renomada escola de circo. Depois, integrou um circo em San Francisco e trabalhou em apresentações de trapézio e mergulho em grandes alturas.

Mais tarde, Montana ingressou na Universidade Harvard, onde se formou em folclore e mitologia. Em seguida, concluiu doutorado na UCLA, tornando-se especialista em culturas adolescentes. Paralelamente à carreira acadêmica, ela continuou praticando atividades extremas, incluindo paraquedismo em alta velocidade e competições de mergulho em penhascos.

Em 2023, aos 53 anos, Montana passou a praticar skeleton, modalidade olímpica em que atletas descem pistas de gelo de bruços em trenós a alta velocidade. Apesar do histórico em esportes radicais, ela afirmou que não possui “desejo de morrer”, mas sim vontade de desafiar os próprios limites.

Enquanto isso, Grosky aprofundava seu envolvimento com educação, política local e causas progressistas. O reencontro entre os dois aconteceu por volta de 2012, pelo Facebook. O ex-professor acompanhava admirado as conquistas acadêmicas e esportivas da antiga aluna, enquanto Montana descobria um homem bastante diferente daquele de quem guardava lembranças negativas da infância.

A relação evoluiu rapidamente para amizade. Eles passaram a conversar sobre política, arte, literatura e ensino. Montana chegou a convidar Grosky para assistir a apresentações suas, e os dois estreitaram os laços ao longo dos anos.

Segundo Montana, perceber o orgulho que o antigo professor demonstrava por ela teve um efeito emocional profundo. Ela afirmou que a admiração recebida dele foi “curativa” de uma maneira complicada de explicar.

Foi nesse período que Grosky revelou enfrentar estágio avançado de doença renal. No ano passado, ele publicou um longo texto nas redes sociais relatando sua situação e explicando que precisava de um transplante de rim para sobreviver.

Montana ficou incomodada ao ver que muitas pessoas respondiam apenas com mensagens de apoio e orações. Decidiu então fazer exames para verificar se poderia ajudar. Inicialmente, acreditava ter tipo sanguíneo incompatível, mas descobriu que estava enganada.

Após meses de exames e avaliações médicas, ela recebeu em dezembro a notícia de que era compatível com o antigo professor. Mais do que isso, ela era considerada uma das melhores combinações possíveis para o transplante.

A cirurgia aconteceu em 21 de abril. Montana e Grosky permaneceram em salas cirúrgicas vizinhas enquanto médicos transferiam o rim direito dela para o corpo do ex-professor. Segundo relatos publicados, o órgão começou a funcionar de forma imediata e positiva.

Mesmo ainda em recuperação e enfrentando dores no pós-operatório, Montana afirmou enxergar a experiência como um privilégio. “A dor que estou sentindo agora definitivamente não é maior do que consigo suportar”, declarou. “Quase parece algo bom.”

Grosky, por sua vez, disse continuar “perplexo” e emocionado com a atitude da antiga aluna. Recuperando-se em casa ao lado da esposa, ele afirmou sentir uma espécie de culpa por sobrevivência diante do sacrifício feito por Montana.

O ex-diretor também afirmou que pretende honrar o gesto vivendo da maneira mais generosa possível. Segundo ele, a experiência reforçou a importância da empatia e da bondade diante das batalhas invisíveis enfrentadas pelas pessoas.